Eu realmente quero isso ou apenas acho que deveria querer?

Mulher diante de dois caminhos reflete sobre o que eu quero da vida e qual direção ainda deseja seguir.

O que eu quero da vida raramente aparece como uma pergunta única, resolvida de uma vez. Aparece em pedaços, dentro de frases que repetimos tantas vezes que paramos de examinar.

Durante anos, você pode repetir a mesma frase: “Eu preciso comprar minha casa.” Talvez tenha feito contas, acompanhado preços, pensado no financiamento e imaginado o momento em que finalmente teria as chaves nas mãos.

A casa entrou na lista das coisas que ainda faltam. Com o passar do tempo, não tê-la pode começar a parecer uma evidência de que alguma coisa está atrasada.

Então alguém faz uma pergunta aparentemente simples:

Por quê?

A resposta parece óbvia. Você quer uma casa porque quer uma casa. Mas, quando tenta explicar melhor, outras respostas podem aparecer: segurança, patrimônio, independência, estabilidade para a família, liberdade para modificar o lugar onde vive.

Talvez apareça também outra resposta:

“Na minha idade, eu já deveria ter uma.”

Nenhuma dessas razões demonstra, sozinha, que o objetivo está certo ou errado. Elas revelam algo que nem sempre percebemos quando pensamos sobre o que eu quero da vida: saber o que desejamos alcançar não significa necessariamente saber por que aquilo se tornou importante.

Uma meta pode permanecer durante tantos anos diante de nós que deixamos de examiná-la. Continuamos calculando a distância até ela, observando o que ainda falta e avaliando a própria vida a partir dessa diferença.

Talvez, antes de perguntar por que ainda não conseguimos alguma coisa, exista uma pergunta anterior:

Por que precisamos consegui-la?

Por que algumas metas parecem óbvias demais para serem explicadas?

Alguns objetivos entram na vida acompanhados de justificativas claras. Uma pessoa pode querer aprender outro idioma porque recebeu uma oportunidade profissional. Pode economizar para financiar um período de estudos ou mudar de cidade para ficar perto de alguém importante.

Em outros casos, a relação entre objetivo e motivo é menos visível. “Quero crescer profissionalmente”, “quero ganhar mais”, “quero casar”, “quero ter meu próprio negócio”, “quero comprar uma casa”. As frases parecem completas, mas cada uma contém uma pergunta escondida:

Para quê?

Ganhar mais pode significar segurança para uma pessoa, liberdade para outra, reconhecimento para uma terceira. A casa pode representar estabilidade. O cargo pode representar autonomia ou influência. O diploma pode significar acesso a uma profissão ou a conclusão de algo que permaneceu aberto durante anos.

O objetivo visível, portanto, não conta toda a história. Antes de avaliar se você já deveria ter alcançado determinado resultado, vale descobrir qual função esse resultado deveria cumprir na sua vida.

O que eu quero da vida e por que quero isso?

Essa pergunta pode parecer abstrata demais. Não precisa ser.

Em vez de tentar responder de uma vez o que eu quero da vida, escolha uma meta concreta que hoje pareça importante e pergunte:

O que espero que isso torne possível?

Suponha novamente que a resposta seja comprar uma casa e que a pessoa explique: “Quero segurança”. Agora existe uma informação que não estava disponível antes. O objetivo não é apenas possuir um imóvel. A propriedade está associada a uma condição que ela valoriza.

Ainda podemos perguntar por que propriedade significa segurança para aquela pessoa. Talvez tenha passado parte da infância mudando de imóvel alugado. Talvez deseje deixar patrimônio para os filhos ou simplesmente valorize a estabilidade associada à propriedade.

Nesse caso, seria simplista concluir que comprar uma casa é apenas uma expectativa social. O objetivo pode estar profundamente ligado a experiências e valores pessoais.

Outra pessoa, porém, pode responder: “Porque quase todo mundo que conheço já comprou” ou “porque, na minha idade, morar de aluguel parece que não deu certo”.

A casa continua sendo a mesma. A razão mudou.

Descobrir a origem e a função de uma meta não serve para invalidá-la. Serve para enxergar melhor o que estamos tentando realizar através dela.

A mesma conquista pode significar coisas diferentes

Imagine duas pessoas buscando a mesma promoção.

A primeira deseja assumir responsabilidades maiores, gosta da atividade e percebe naquela função a possibilidade de realizar um trabalho que considera importante. A segunda também quer a promoção, mas sua principal preocupação é deixar de sentir que ficou para trás em relação aos colegas.

Por fora, as duas estão perseguindo o mesmo cargo. Por dentro, o cargo participa de avaliações diferentes.

Pesquisas sobre auto-concordância investigam justamente a relação entre as metas que perseguimos e nossos interesses e valores. De maneira geral, metas mais concordantes têm sido associadas a maior esforço e progresso e, quando alcançadas, a benefícios de bem-estar.

Isso não significa dividir nossas metas em duas caixas simples: “minhas” e “dos outros”. Uma meta pode ter sido apresentada pela família, valorizada pelo grupo social e reforçada pela cultura e, ainda assim, tornar-se algo que a pessoa genuinamente valoriza.

A origem social de um objetivo não determina seu valor atual. A pergunta mais importante é outra:

O que aconteceu com essa meta depois que ela chegou até mim?

Uma meta aprendida também pode virar uma escolha?

Praticamente nenhuma escolha importante surge em isolamento. Aprendemos possibilidades observando outras pessoas, convivendo com expectativas, conhecendo profissões e absorvendo valores familiares.

Imagine alguém que aprendeu com a família que possuir uma casa é importante. Aos 20 anos, talvez repetisse essa ideia porque a ouvia desde criança. Aos 40, depois de experiências com aluguel, mudanças, filhos e planejamento financeiro, pode continuar querendo a casa por razões que agora consegue reconhecer e assumir.

A meta foi aprendida. Isso não impede que tenha sido escolhida novamente.

Não precisamos encontrar uma vontade completamente livre da influência dos outros para considerar uma escolha legítima. O que podemos fazer é examinar se a meta continua coerente com aquilo que valorizamos e com o que desejamos construir nas condições atuais.

Uma meta não precisa ser rejeitada porque foi aprendida. Ela precisa poder ser examinada.

O que acontece quando você retira o “deveria”?

Considere uma pessoa que diz:

“Eu deveria estar ganhando mais.”

Retire o “deveria”:

“Eu quero ganhar mais.”

As frases parecem próximas, mas não fazem exatamente a mesma coisa.

Agora pergunte por quê. Talvez a pessoa queira diminuir a insegurança financeira, trabalhar menos horas, ajudar os pais ou financiar um projeto. Nesse caso, aumentar a renda está associado a alguma coisa que ela consegue nomear.

Mas pode aparecer outra resposta: “Porque alguém da minha idade deveria ganhar mais.” Agora o salário deixou de funcionar apenas como recurso. Ele também participa da maneira como a pessoa determina em que posição está.

Isso não prova que ela deva abandonar o objetivo financeiro. Talvez queira ganhar mais por várias razões ao mesmo tempo. A investigação serve justamente para revelar aquilo que estava misturado.

Podemos avançar mais uma pergunta:

Se eu pudesse obter aquilo que realmente busco por outro caminho, essa conquista continuaria importante?

Se a casa representa segurança, propriedade é a única forma de construí-la? Se o cargo representa autonomia, existem outros caminhos para ampliá-la? Se determinado salário representa reconhecimento, é exatamente o dinheiro que está sendo procurado?

Depois dessas perguntas, a resposta pode continuar sendo:

“Sim. Ainda quero exatamente isso.”

Essa é uma descoberta válida. O objetivo passou pela investigação e permaneceu.

Quando a meta também mede sua posição na vida

Imagine que você decida não perseguir mais um objetivo. Não porque seja impossível, mas porque percebeu que já não deseja dedicar tempo, dinheiro ou energia a ele.

O que exatamente parece ter sido perdido?

Talvez seja algo concreto: uma experiência que você realmente desejava, uma profissão que valorizava ou uma condição importante para sua família. Nesse caso, abandonar o objetivo possui um custo que você consegue reconhecer.

Mas o desconforto também pode aparecer em outra linguagem: “Vou parecer alguém que não conseguiu”, “todo mundo avançou e eu fiquei” ou “a essa altura, isso já deveria estar resolvido”.

Observe a mudança. A meta deixou de ser apenas uma coisa que você desejava realizar. Ela também passou a funcionar como referência para determinar em que posição você acredita estar na vida.

É nesse ponto que a sensação de atraso ganha outra camada. Podemos passar anos medindo a distância até determinado destino sem perceber que o próprio destino permaneceu fora da investigação.

Você examinou o destino antes de medir a distância?

Quando alguém sente que está atrasado, a pergunta mais imediata costuma ser: quanto falta?

Quanto falta para ganhar determinado salário, comprar a casa, conseguir o cargo ou formar uma família?

A distância pode ser real. O objetivo também pode continuar profundamente importante. Mas nenhuma dessas duas coisas elimina uma pergunta anterior:

Por que ainda quero chegar lá?

O ainda importa.

Você não é obrigado a permanecer comprometido hoje com todas as metas que assumiu anos atrás. Também não precisa abandoná-las simplesmente porque descobriu influências familiares, culturais ou sociais em sua origem.

Uma meta antiga pode ser confirmada, modificada, substituída ou perder importância. Também pode continuar exatamente onde estava, mas agora por razões que você consegue reconhecer.

Algumas metas não precisam ser abandonadas. Precisam ser escolhidas novamente.

Nesse momento, a pergunta deixa de ser apenas quanto falta para chegar. Passamos a examinar também por que aquele lugar continua sendo o destino.

Como escolher uma meta novamente?

Pegue uma conquista que atualmente participa da maneira como você avalia sua vida. Não escolha necessariamente a maior. Escolha uma que produza a sensação de que aquilo já deveria ter acontecido.

Então faça três perguntas.

Primeiro: o que espero que essa conquista torne possível? “Ter uma casa” não responde o que a casa deveria produzir. “Ser promovido” não explica o que a promoção representa. “Ganhar mais” ainda não diz o que o dinheiro deveria mudar.

Segundo: se essa conquista deixasse de funcionar como medida de onde eu deveria estar na vida, eu continuaria querendo construí-la? Essa pergunta separa o valor do objetivo da função que ele pode ter adquirido como marcador de posição.

Terceiro: se eu decidir continuar perseguindo essa meta hoje, consigo dizer por que estou escolhendo-a agora? Essa pergunta desloca a decisão para o presente.

Uma razão aprendida pode continuar válida. Uma meta antiga pode permanecer adequada à pessoa que você se tornou. Mas também é possível descobrir que você continuava caminhando simplesmente porque nunca havia parado para verificar o destino.

A sensação de estar atrasado pode surgir quando usamos o resultado de outra pessoa como referência, quando associamos conquistas a determinados prazos, quando comparamos a vida real com a que imaginávamos ou quando transformamos a idade numa resposta antecipada sobre aquilo que ainda podemos começar.

Existe, porém, uma última possibilidade:

Talvez você esteja medindo corretamente a distância. Talvez apenas não tenha examinado o destino há muito tempo.

Por isso, antes de usar a distância até uma conquista para avaliar a própria vida, vale voltar à pergunta que apareceu no início:

Por quê?

Não para abandonar automaticamente aquilo que você queria. Nem para descobrir uma vontade completamente livre da influência dos outros. A pergunta serve para algo mais concreto: descobrir se aquilo que ainda orienta suas escolhas continua merecendo essa função.

Porque existe uma diferença entre perseguir uma meta apenas porque ela permaneceu na lista e examiná-la novamente até conseguir responder:

Sim. Eu ainda escolheria chegar lá.

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