Medo de se arrepender: e se eu tomar a decisão errada? (6_2)

Medo de se arrepender: placas apontando caminhos diferentes representam a incerteza diante de uma decisão.

Você recebe uma proposta de trabalho. Há razões para aceitá-la: novas possibilidades, uma rotina diferente, talvez melhores condições. Mas aceitar significa deixar o emprego atual.

Então aparece uma cena que ainda não aconteceu.

Você se imagina alguns meses depois, insatisfeito com a escolha, pensando no trabalho que deixou e perguntando a si mesmo: “por que fui mudar?”

Nada deu errado ainda. A decisão nem sequer foi tomada. Mesmo assim, o possível arrependimento já começou a participar da escolha.

O medo de se arrepender pode tornar uma mudança especialmente difícil porque não pensamos apenas no que poderá acontecer. Também imaginamos como nos sentiremos se descobrirmos que fomos nós que escolhemos o caminho que deu errado.

Por que o medo de se arrepender pode dificultar uma mudança?

Toda decisão relevante fecha algumas possibilidades enquanto mantém ou abre outras.

Aceitar um emprego significa não continuar exatamente no anterior. Mudar de cidade significa deixar uma rotina conhecida. Encerrar um projeto significa abandonar uma continuidade possível. Mesmo escolhas que podem ser revistas possuem consequências que não desaparecem simplesmente porque mudamos de ideia depois.

Por isso, decidir não envolve apenas escolher aquilo que faremos. Envolve também aceitar que outras possibilidades deixarão de ser vividas.

Quando pensamos no futuro, porém, essas possibilidades não desaparecem da imaginação.

Podemos escolher um caminho e continuar imaginando o outro.

É justamente aí que o arrependimento encontra espaço: comparamos aquilo que aconteceu com aquilo que acreditamos que poderia ter acontecido.

O arrependimento nasce apenas quando uma decisão dá errado?

Não necessariamente.

Imagine que você tenha trocado de emprego e que a escolha, no geral, tenha sido razoável. Ainda assim, a nova experiência apresenta problemas que não estavam visíveis antes da mudança. Em um dia difícil, talvez pense:

“Se eu tivesse ficado, isso não estaria acontecendo.”

A frase parece comparar duas realidades, mas existe uma diferença importante.

Você conhece o que aconteceu depois da mudança. Não conhece aquilo que realmente teria acontecido caso tivesse permanecido.

O antigo emprego poderia continuar exatamente igual. Poderia melhorar. Poderia piorar. Você poderia receber outra oportunidade, enfrentar um problema inesperado ou continuar insatisfeito.

A decisão não precisa ter sido errada para que o arrependimento apareça. Basta um dia difícil e uma alternativa que só existe na imaginação.

Por que imaginamos com tanta facilidade o arrependimento de agir?

Uma mudança costuma produzir um ponto identificável de decisão.

“Eu aceitei.”

“Eu saí.”

“Eu encerrei.”

“Eu mudei.”

Se alguma coisa dá errado depois, é relativamente fácil construir uma ligação entre o resultado e aquele momento.

Eu fiz isso e agora estou vivendo esta consequência.

Essa relação torna o arrependimento por agir muito visível. Existe uma decisão à qual podemos retornar mentalmente e perguntar o que teria acontecido se tivéssemos escolhido diferente.

Não agir possui outra aparência.

Quando continuamos como estamos, pode não existir um momento tão claro ao qual atribuir aquilo que acontece depois. A vida simplesmente continua.

Por isso, antes de decidir, podemos enxergar com muita nitidez uma possibilidade:

“E se eu mudar e me arrepender?”

Enquanto outra pergunta recebe menos atenção:

“E se eu não mudar e depois me arrepender de não ter tentado?”

A diferença entre essas duas perguntas revela uma assimetria importante.

A escolha realizada deixa evidências. A escolha não realizada deixa perguntas.

Quando agimos, conseguimos apontar para uma decisão e relacioná-la ao que aconteceu depois. Quando não agimos, aquilo que deixamos de viver não produz um resultado concreto que possamos observar.

É por isso que o medo de se arrepender costuma se concentrar na mudança. O arrependimento de agir já possui uma cena imaginável: tomei a decisão, algo deu errado e agora gostaria de voltar atrás.

O arrependimento de não agir é menos visível porque depende de uma possibilidade que talvez nunca descubramos.

Não decidir também pode produzir arrependimento?

Pode.

Imagine alguém que pensa durante anos em tentar outra atividade profissional. Há razões para considerar a mudança, mas também existem incertezas. A pessoa decide esperar.

Um ano passa.

Depois outro.

Talvez a decisão de permanecer continue fazendo sentido. Talvez as condições realmente não fossem adequadas. Mas também existe outra possibilidade: em algum momento, essa pessoa pode olhar para trás e perguntar o que teria acontecido se tivesse tentado.

Esse é um arrependimento diferente.

No primeiro caso:

“Por que fiz isso?”

No segundo:

“Por que não fiz?”

Nenhuma das perguntas prova que a decisão contrária teria produzido uma vida melhor. Ambas mostram algo mais simples: o arrependimento não pertence exclusivamente à ação.

A pesquisa psicológica aponta na mesma direção. Thomas Gilovich e Victoria Medvec observaram que, a curto prazo, as pessoas tendem a lamentar mais aquilo que fizeram. Com o passar do tempo, porém, os arrependimentos mais persistentes costumam envolver aquilo que deixaram de fazer. O medo de se arrepender, quando olha apenas para a ação, pode estar enxergando só metade do problema.

Também podemos lamentar oportunidades que não exploramos, conversas que não tivemos, escolhas que adiamos e caminhos que nunca chegamos a experimentar.

O arrependimento de agir aponta para aquilo que aconteceu. O arrependimento de não agir pode permanecer ligado àquilo que nunca saberemos.

O medo de se arrepender pode indicar um risco real?

Pode.

Seria um erro tratar todo medo de se arrepender como paralisia.

Algumas decisões possuem consequências difíceis de reverter. Outras envolvem dinheiro, responsabilidades familiares, saúde, compromissos ou perdas importantes. Em situações assim, imaginar o arrependimento pode nos levar a examinar consequências que realmente merecem atenção.

O problema não está em perguntar:

“E se eu me arrepender?”

O problema aparece quando essa pergunta é feita apenas para uma das alternativas.

Se imaginamos detalhadamente o sofrimento de mudar e descobrir que erramos, mas não examinamos aquilo que poderemos sentir se permanecermos e posteriormente desejarmos ter tentado, estamos comparando dois caminhos com critérios diferentes.

O objetivo não é prever qual arrependimento será maior. É reconhecer algo mais simples:

Nenhuma escolha possui o monopólio do arrependimento.

Por que o caminho que você não escolheu parece melhor depois?

Depois de uma decisão difícil, algo curioso pode acontecer.

As dificuldades do caminho escolhido são reais, concretas e presentes. Precisamos lidar com elas.

As dificuldades do caminho abandonado, por outro lado, deixaram de acontecer conosco.

Isso cria uma comparação desigual.

Você conhece o chefe difícil do novo trabalho, mas não conhece o problema que poderia ter surgido no antigo. Conhece os desafios da nova cidade, mas não sabe como sua vida teria evoluído se tivesse permanecido. Conhece as consequências da decisão tomada, enquanto as consequências da alternativa pertencem à imaginação.

Por isso, quando algo dá errado, podemos comparar a realidade completa do caminho escolhido com uma versão incompleta do caminho abandonado. E a alternativa imaginada pode parecer melhor justamente porque não precisa enfrentar a realidade.

O caminho que não escolhemos nunca precisa provar que teria dado certo.

Uma decisão ruim é o mesmo que um resultado ruim?

Podemos buscar informações, conversar, calcular consequências e preparar alternativas antes de uma decisão. Isso pode reduzir riscos e revelar aspectos que ainda não havíamos considerado.

Mas nem toda consequência pode ser conhecida antecipadamente.

Uma decisão pode ser razoável com as informações disponíveis hoje e produzir um resultado decepcionante depois. Da mesma forma, uma escolha pouco refletida pode ocasionalmente terminar bem.

Resultado e qualidade da decisão não são exatamente a mesma coisa.

Julgar uma escolha apenas pelo que descobrimos depois pode criar uma exigência impossível: ter sabido antes aquilo que somente a experiência poderia revelar.

Como olhar para o medo de se arrepender com mais precisão?

Lidar com o medo de se arrepender não exige eliminar a pergunta “e se eu me arrepender?”. Exige ampliá-la.

Em vez de procurar uma escolha que garanta ausência de arrependimento, podemos observar o que exatamente estamos tentando evitar.

Do que imagino que vou me arrepender?

Talvez você tema perder estabilidade, dinheiro, tempo, uma relação, uma posição ou uma oportunidade.

“Vou me arrepender” é uma previsão ampla. Nomear o que poderia produzir esse arrependimento torna a preocupação mais concreta.

Estou imaginando apenas o arrependimento de agir?

Se todas as cenas futuras começam com “eu mudei e deu errado”, a comparação está incompleta.

Vale construir também a outra hipótese:

“Se eu permanecer, existe algo que posso lamentar não ter tentado?”

A resposta pode ser não. Permanecer pode continuar sendo a decisão mais coerente.

A função da pergunta é apenas permitir que as duas alternativas sejam examinadas.

O que posso saber antes da decisão?

Algumas consequências podem ser investigadas antes da escolha. Outras somente aparecerão depois dela.

A pergunta ajuda a separar riscos que podem ser examinados agora daquilo que permanece inevitavelmente incerto.

Não se trata de esperar até conhecer todo o futuro, mas de utilizar aquilo que realmente pode ser conhecido no presente.

A decisão é reversível, parcialmente reversível ou difícil de reverter?

Nem toda mudança possui o mesmo peso.

Algumas permitem correção relativamente simples. Outras exigem planejamento porque seus efeitos são mais difíceis de desfazer.

Avaliar a reversibilidade ajuda a dimensionar o risco sem tratar todas as escolhas como definitivas.

Estou tentando tomar uma boa decisão ou garantir um bom resultado?

São objetivos diferentes.

Uma boa decisão pode considerar informações disponíveis, consequências, responsabilidades e limites. Um bom resultado também depende de fatores que talvez não estejam sob nosso controle.

Confundir os dois pode fazer com que a existência de qualquer risco pareça prova de que ainda não podemos decidir.

Existe uma escolha que proteja do arrependimento?

Quando imaginamos uma decisão futura, é tentador procurar uma alternativa que nos proteja de qualquer possibilidade de olhar para trás e desejar algo diferente.

Mas essa alternativa pode não existir.

Mudar pode produzir arrependimento. Permanecer também. E mesmo uma decisão que continue parecendo correta pode envolver perdas que lamentaremos.

Por isso, talvez a pergunta mais útil não seja:

“Qual escolha garante que eu não vou me arrepender?”

Mas:

“Com aquilo que sei hoje, quais consequências estou disposto a assumir em cada alternativa?”

Essa mudança de pergunta não elimina a incerteza nem determina se você deve mudar.

Ela apenas impede que uma possibilidade futura de arrependimento seja tratada como se pertencesse somente ao caminho da mudança.

Não podemos escolher sabendo exatamente como olharemos para trás. Podemos apenas evitar que o medo de se arrepender de agir esconda a possibilidade de também nos arrependermos de não agir.

Artigos Relacionados

Medo de perder: por que mudar ameaça o que você já conquistou? (6_3)

Medo de perder: por que mudar ameaça o que você já conquistou? (6_3)

Você pensa em mudar de trabalho. A nova oportunidade pode oferecer melhores condições, aprendizado e possibilidades de crescimento. Mesmo assim, antes de imaginar aquilo que poderá ganhar, outra pergunta aparece:

Medo de se arrepender: e se eu tomar a decisão errada? (6_2)

Medo de se arrepender: e se eu tomar a decisão errada? (6_2)

Você recebe uma proposta de trabalho. Há razões para aceitá-la: novas possibilidades, uma rotina diferente, talvez melhores condições. Mas aceitar significa deixar o emprego atual. Então aparece uma cena que

Decepção: por que mudar pode decepcionar alguém? (6_1)

Decepção: por que mudar pode decepcionar alguém? (6_1)

Você decide considerar uma mudança de trabalho. Antes mesmo de pensar em salário, rotina ou no que poderá encontrar pela frente, imagina a conversa em casa. Alguém acreditava que você

Medo de mudar: por que o conhecido parece mais seguro? 6

Medo de mudar: por que o conhecido parece mais seguro? 6

Há situações que já não nos satisfazem, mas ainda assim parecem difíceis de abandonar. Um trabalho perdeu o sentido. Uma rotina produz mais desgaste do que bem-estar. Um projeto pessoal

Eu realmente quero isso ou apenas acho que deveria querer?

Eu realmente quero isso ou apenas acho que deveria querer?

O que eu quero da vida raramente aparece como uma pergunta única, resolvida de uma vez. Aparece em pedaços, dentro de frases que repetimos tantas vezes que paramos de examinar.

Está tarde para começar? O que a idade realmente muda

Está tarde para começar? O que a idade realmente muda

Você pensa em começar alguma coisa. Uma graduação, outro idioma, um pequeno negócio, um livro, talvez uma atividade que vem adiando há anos. Por alguns instantes, considera como faria. Então

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors